Emergiram quinze na noite de ontem,
sem rosto, sem nome, sem direito algum.
Itacaiunas ia em murmúrio afiado,
gritando a alvorada e contando mais um.
A terra faz pó quem nela semeia,
como a terra seca que em pó se faz,
pra que não esqueça quem lhe bota as cercas
que ela guarda as almas de quem nela jaz.
Emergiram vinte —”Bate a foto, moço!
Amanhã tem outros, mas ninguém mais viu.
Ao redor da cerca a morte está à espreita,
só não tomba nela quem, daqui, fugiu.”
Tudo aqui tem preço quando a bala aponta,
quem não vende terra compra seu caixão.
Coronel, no Norte é pé de apuizeiro:
no “abraço” grileiro “vampiriza” o chão.
Nas trilhas vermelhas e negras da história
a Amazônia tomba em triste pastiçal.
Sobe a fumaça, cerca traga a vida
e a roça do pobre vira pasto e sal.
Já boiaram trinta, tem até criança!
pedra no pescoço e amarra na mão.
Jacaré tropeça em quem veio de fora
pra pegar o fruto sem ter plantação.
Quem manda na lei se esconde nas sombras,
no poder do Agro, banca ruralista,
mas o ferro, fogo e bala de jagunço
marcam a memória do povo nortista.
Belém - 2019